O que é pecado? O que podemos incluir na lista? Se fôssemos fazer uma lista das coisas erradas ou que ofendem a Deus, o que colocaríamos nela?

Há vinte anos atras, quando eu ainda fazia parte do grupo de jovens da igreja, essa lista era muito clara, e comprida.

Não existe uma única lista que contenha todos os pecados possíveis listados na Bíblia, mas existe uma lista bem conhecida de mandamentos e a partir dela podemos extrair alguns dos mais conhecidos e aceitos por todos.

Homicídio , está na lista é claro, assim como roubo, idolatria, adultério e a cobiça daquilo que é do seu vizinho.

Indo um pouco além, olhamos para os ensinos de Jesus, depois Paulo, e adicionamos um monte das “obras da carne” de Galatas 5 – imoralidade sexual, lascívia, ódio, bruxaria, esse tipo de coisa.

A lista esta longa, mas não termina por aqui. Existem mais “pecados” – coisas que nossos líderes no grupo de jovens nos disseram que fazem separação entre as pessoas e Deus – que são talvez menos graves, mas que de alguma forma também foram extraídos das escrituras. Eles são mais de natureza social, ou seja, mais genéricos em nossa abordagem pessoal em relação à santidade e portanto, a vida.

Me parece que ao longo dos último 20 anos essa longa lista sofreu algum processo de erosão. Por alguma razão, alguns itens da lista que era aceitos universalmente como “pecados” há algumas décadas atrás, são vistos agora como coisas muito menos severas ou são até mesmo ignoradas. É uma vez que nosso estilo de vida diz muito mais sobre nossa teologia do que as palavras, essa erosão é provavelmente muito maior na prática do que gostaríamos de admitir na teoria. Aqui estão alguns exemplos do que eu quero dizer com isso.

1. Uma corrida as loterias

Houve uma época em que fazer apostas era considerado um dos maiores sinais de uma sociedade sem Deus… Hoje é fácil perceber que os cristãos não veem nenhum perigo em fazer apostas em cavalos, jogos de futebol, ou desperdiçar uns trocados na loteria ou raspadinhas. A Bíblia não condena explicitamente fazer apostas (embora era seja bem clara em relação a nossas atitudes com o dinheiro), então talvez seja mais uma questão de onde estamos colocando nossa confiança quando fazemos apostas.

2. Xingar só um pouquinho

Palavras grosseiras já não chocam tanto em nossa cultura atual – e talvez um F…-se dentro do contexto nem mesmo eleve um filme a categoria 12 anos.

Na igreja, em geral, o mesmo acontece – nos tornamos mais relaxados – uma boa parte considera palavras “sujas” como algo de caráter irrelevante e preocupação exagerada de quem não concorda.

De fato, muitos líderes de igreja que achamos caras descolados curtem umas palavras desse tipo, as vezes até mesmo em sermões, e alguns até mesmo defendem esse comportamento.

Paulo nos adverte sobre não permitir que conversas sem sal (sem proveito) saiam das nossas bocas – mas vai ver ele não quis dizer que palavrões são sem proveito, certo?

3. Guerra dos Tronos

Este aqui é um das mudanças mais fáceis de se identificar. A maioria dos cristãos dos anos 90 iriam evitar qualquer filme classificado como 18 anos da mesma forma que eles evitariam um encontro pessoal com Freddy Krueger da Hora do Pesadelo. Hoje, nós muitas vezes incentivamos outros a assistir séries e programas de TV que estão cheios de sexo e violência. É claro, nós temos que entender a cultura para poder falar profeticamente a ela – mas alguns de nós estão levando essa missão REALMENTE a sério…

4. Sexo antes do casamento

Aqui a coisa começa a ficar mais séria. Muito já foi dito sobre como interromper o relacionamento sexual por pretexto de santificação pode estragar um relacionamento conjugal – mas por outro lado o que aconteceu com a antiga sabedoria que dizia “nada de comer a sobremesa antes da janta” ou “não toque aquilo que ainda não é seu”? Um amiga recentemente me contou que ela teve que terminar com seu namorado – um líder de adoração de uma grande igreja em Londres, depois dele pressiona-la para que dormisse com ele. O argumento dele? ‘A, qual é! Todo mundo faz isso!’

5. Piadas inapropriadas

Talvez menos importante mas de longe o que mais acontece – o tipo de humor praticado entre muitos cristãos tem descido ladeira abaixo desde os dias de Adrian Plass (escritor de humor cristão). Algumas vezes elas são um pouco grosseiras (decida o que voce pensa sobre o item 2 primeiro), mas frequentemente elas são cruéis ou até mesmo preconceituosas (com uma dose saudável de pos-modernismos pra que pareça ok). No primeiro caso é sempre uma questão de como você transita em assuntos polêmicos, mas no segundo caso é uma questão de justiça – e certamente algo para se preocupar.

6. (Mac) Idolatria

Uma das grandes tradições cristãs é a disciplina da simplicidade – não ter outros deuses, materiais ou quaisquer outros – que estejam entre nós e nosso criador. Todavia, muitos de nós atribuem grande valor a ‘grandes marcas’ através das quais acabamos nos definindo. Nenhuma é mais descolada – ou mais central para a cristandade moderna – do que a Apple, com seu portfolio de aparatos tecnológicos desejáveis e sempre renovados. É bem possível que voce esteja lendo esse isto em um deles; se está, junte-se ao clube – Eu estou escrevendo em um. A questão é – quão facilmente nós poderíamos abrir mão deles…?

7. Só uma gelada

A atitude cristã em direção a bebida de certa forma esta menos rígida – mais uma vez, considerando isso de um ponto de vista que nos aliena da nossa cultura. Mas será que não estamos tranquilos demais em relação a ela? É claro, um bom argumento para beber com gosto é que Jesus fez aparecer mais vinho – e com melhor  qualidade – depois que os convidados estavam já tão passados que não podiam nem mesmo diferenciar entre este e os anteriores. Por outro lado, qual a impressão que passamos aos outros (que sabem que somos cristãos) depois que já tomamos algumas cervejas e uma caipirinha?

8. Glutonaria

Vivemos num mundo onde milhões de crianças vão para cama famintas – e centenas de milhares delas estão vivendo não em uma terra distante, mas no mesmo país em que vivemos. Enquanto isso, dois dos nossos maiores programas de TV são O Maior Padeiro de Londres e TopChef. Nossa cultura transformou comida em algo entre a arte e a idolatria, e já nem mesmo conseguimos distribuir ela de uma maneira que todos possam ter o suficiente. Talvez seja por isso que a Bíblia fala tão seriamente sobre glutonaria; talvez isso devesse nos fazer questionar por que nós aceitamos ter uma pastor totalmente fora do peso que adora curry, enquanto outros pecados iriam expulsá-lo da comunhão.

9. Viciado em café

Tudo que nos domina é mau – certo? São vícios, que demonstram que não estamos no controle de nós mesmos – portanto, na contramão de vários ensinamentos sobre a importancia do domínio próprio. Mas espere – existe uma exceção! Café! Tudo bem, é algo que nos faz trabalhar mais! Certo? Ótimo. Cafeína tudo bem! Não me afeta de jeito nenhum! É praticamente medicinal! PS: Eu não consegui dormir a noite passada.

10. Ganância

Por último, aquele que talvez possa nos convencer afinal. Todos nós confessamos com nossos lábios que a ganância é errado – mas nosso comportamento em relação a cultura consumista – desde a maneira que vivemos nossas vidas até a maneira como organizamos nossas igrejas – sugere algo bem diferente. Pode ser até que nossa atitude em relação ao dinheiro acabe definindo quem somos como a igreja desta geração.

É claro que muitos iriam argumentar  que muitas dessas mudanças das ultimas décadas representam passos positivos e progressivos para uma igreja que estava travada num passado Puritano. Alguns iriam também dizer que estes “pecados” ainda são vistos da mesma maneira como eram antes em muitas igrejas – e portanto qualquer generalização deste tipo irá sempre deixar alguns de fora.

Eu ainda tenho alguns concernes que me incomodam. O primeiro é que numa cultura consumista, na qual liberdade de escolha pessoal se tornou um ídolo para alguns, é fácil ver como poderíamos passar a levar o pecado menos a sério, e isso sem qualquer grande justificativa teológica racional. A Bíblia menciona que o salário do pecado é a morte – então se você encarar isso pra valer, poderia ser bem válido para nós começar a pensar o que o pecado realmente significa.

Minha outra questão é sobre como os jovens de hoje – e outros que talvez não sigam a fé cristã – veem esta mudança aparente no nosso comportamento coletivo. Por acaso eles se sentem aliviados porque somos um poucos mais tranquilos nos dias de hoje, um pouco mais como eles do que eles imaginavam; talvez um pouco mais acessível como uma comunidade que eles gostariam de se juntar? Eu acho eu espero que isso seja verdade, mas eu temo que não seja. Ao contrario, eu me pergunto se eles apenas nos veem como pessoas que não são diferentes, não são tão “consagradas”, e que não parecem se preocupar muito com a causa com a qual eles proclamam tanta devoção. Podemos realmente esperar que eles queiram se juntar a nós? O que estão vendo pode não ser exatamente um convite que inspira outros a uma maneira de viver mais elevada.

Para mim a mudança na forma de encarar alguns pecados parece dificil de negar. Se isso é devido a uma jornada progressiva da teologia dentro da igreja, talvez isso não seja um problema. Se é porque nós temos andado como sonâmbulos no meio de uma cultura progressiva de consumidores, isso deveria talvez nos trazer um pouco mais de seriedade e preocupação com o assunto

Martin Saunders é autor, roteirista e CEO da Youthscape. Siga-o no Twitter @martinsaunders

Leia o original aqui: http://www.christiantoday.com/article/ten.sins.that.we.now.take.less.seriously/43564.htm

Tradução e Adaptação: Leandro G Santos

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